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Pesquisa analisa impactos da implantação de colégio em aldeia do Paraná

A partir da década de 1980, a educação escolar indígena se fortaleceu no Brasil devido à estruturação de movimentos indígenas. O primeiro avanço, em 1988, veio com o decreto da educação escolar indígena na Constituição brasileira, que definiu que o Estado deve garantir conteúdos mínimos para assegurar a formação básica, além de fornecer o Ensino Fundamental na Língua Portuguesa e também nas Línguas maternas. Após esse marco, em 1992 o Ministério da Educação (MEC) implantou o Comitê de Educação Escolar Indígena justamente para garantir ações escolares por meio da educação bilíngue. Outros progressos vieram em 2000, com a Lei de Cotas e, em 2001, com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, do Plano Nacional de Educação (PNE), e com o vestibular voltado aos povos indígenas em universidades públicas.

Apesar dos avanços, atualmente, diversas aldeias ainda enfrentam, em seu dia a dia, desafios práticos na educação de seu povo. Levando em consideração a importância de fomentar a educação formal nesses espaços – com o objetivo de criar novas oportunidades para a população indígena, além de fortalecer as culturas locais – , a pesquisadora Flor Magali Aguilar López realizou o estudo de mestrado intitulado “Contribuição sociocultural do Colégio Estadual Benedito Rokag, na Terra Indígena Kaingang Apucaraninha (Tamarana, PR)”, desenvolvido no escopo do Programa de Pós-Graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Rural (PPGADR) do Centro de Ciências Agrárias (CCA) da UFSCar, sob orientação do professor Luiz Antonio Cabello Norder, do Departamento de Desenvolvimento Rural (DDR-Ar).

Em sua pesquisa, López analisou as interpretações da população da Terra Indígena Kaingang Apucaraninha, localizada em Tamarana (PR), sobre a criação do Colégio Estadual Benedito Rokag, situado no interior da aldeia e que contempla os ensinos Fundamental e Médio. A metodologia utilizada no trabalho consistiu em entrevistas semiestruturadas, ou seja, baseadas em um roteiro de perguntas, além da observação direta, em campo. Em suas análises, a pesquisadora pode comparar o dia a dia da comunidade a partir da presença da nova escola – implantada na região desde 2013 – com a rotina de um período anterior, em que os indígenas tinham que se deslocar até a sede do distrito mais próximo para cursar o Ensino Médio. “Com base em vivências e entrevistas, pude identificar os processos pedagógicos diferenciados, a construção da identidade sociocultural dos jovens indígenas, bem como as limitações e as perspectivas dos professores – indígenas e não indígenas”, enumera a pesquisadora.

Implantação do Colégio: avanços geográficos, pedagógicos e culturais
Segundo López, os alunos relataram que, antes da implantação do Colégio, enfrentavam dificuldades de deslocamento até a escola, o que acarretava, muitas vezes, em descontinuidade dos estudos no Ensino Médio. Além disso, eles apontaram sofrer racismo de outros alunos e até de alguns professores, além de terem dificuldades para compreender e se expressar na Língua Portuguesa. “A reprovação em algumas disciplinas, como Matemática, era constante, o que contribuía com a evasão escolar”, afirma ela.

Também de acordo com a pesquisadora, com a implantação do Colégio Benedito Rokag na aldeia, houve nitidamente uma maior inserção dos jovens Kaigang nas políticas internas da terra indígena. “A estruturação da escola foi uma motivação para que os jovens dessem continuidade em seus estudos no Ensino Médio. Outro destaque foi o fato de os professores, a maioria não indígena, observarem que havia uma necessidade de melhorar a autoestima dos jovens e romper com a marginalização da cultura Kaingang, fortalecendo a tradição local”, explica.

Além de diminuir a evasão no Ensino Médio, a implantação do Colégio foi acompanhada do desenvolvimento de outras atividades práticas, como é o caso do grupo de dança N?n Gã (“Donos do Mato” na Língua Kaingang). “Sua finalidade é fortalecer a cultura da aldeia, retomando práticas tradicionais que estavam se perdendo como, por exemplo, a Festa do Parí”, conta López.

Outro destaque é a proposta pedagógica do Colégio. “Na aldeia, há exigências específicas para a escola, como encontrar mecanismos para melhorar a autoestima dos jovens indígenas, bem como trabalhar contra a negação da identidade e da Língua, algo infelizmente comum entre os estudantes. Além disso, a quantidade de conteúdo é redimensionada de modo a facilitar a compreensão dos estudantes e estimular a participação em sala de aula”, descreve a pesquisadora.

A partir do levantamento realizado, López considera que a escola está sendo um espaço de empoderamento para a juventude indígena Kaingang. Para ela, o Colégio Benedito Rokag tem desenvolvido um papel fundamental na revitalização da cultura Kaingang entre a juventude. No entanto, apesar dos avanços, ainda restam desafios a serem enfrentados. “A ausência de material didático e de capacitação específica sobre educação escolar indígena para os professores, bem como a infraestrutura precária do Colégio, são fatores limitantes e que precisam ser aprimorados”, defende.

Amplificando o debate
Com a pesquisa, a estudante da UFSCar espera contribuir para discussões sobre a educação indígena no Brasil. “É essencial debatermos assuntos como a formação de professores, indígenas ou não, para dar aulas em escolas indígenas; a importância de tradutores auxiliando professores nas escolas indígenas; e o fortalecimento de iniciativas como os vestibulares indígenas que ampliam o acesso dessa população às universidades públicas”, destaca. A pesquisadora também pretende, com seu estudo, fomentar debates para auxiliar no desenvolvimento da autonomia nas escolas indígenas e na construção de mecanismos pedagógicos alternativos que atendam às necessidades e empodere a juventude indígena. 

Para realizar o mestrado, López contou com bolsa do Consejo Nacional de Ciencia y Tecnologia (CONACyT), do México, seu país natal. “Desenvolver um mestrado fora de meu país de origem me trouxe experiências enriquecedoras. O aprendizado de outras realidades, cultura e Língua me deu ferramentas muito importantes para meu desenvolvimento pessoal e profissional”, garante. Atualmente, ela cursa doutorado no Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais (PPGERN), também da UFSCar. Para o futuro, a pesquisadora pretende investigar a educação indígena na América Latina. A dissertação de Flor Magali Aguilar López está disponível no Repositório Institucional (RI) da UFSCar.

Publicado por: Adriana Arruda
Em 18/12/2017